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Men in Love

01 novembro 24 – 24 janeiro 25     Curadoria Domenico de Chirico    Expografia  Alberto Rheingantz 
 

 

“Ao concluir esta visão de conjunto da beleza, surge naturalmente a ideia de compará-la ao sublime, e nesse paralelo aparece um contraste notável. Os objetos sublimes são, de fato, vastos em suas dimensões, enquanto os belos, em comparação, são pequenos; se a beleza deve ser lisa e polida, a grandiosidade é áspera e descuidada; a beleza deve evitar a linha reta, desviando-se dela insensivelmente; a grandiosidade, em muitos casos, aprecia a linha reta e, quando dela se afasta, realiza frequentemente um forte desvio; a beleza não deve ser obscura, a grandiosidade deve ser sombria e tenebrosa; a beleza deve ser leve e delicada, a grandiosidade sólida e até mesmo maciça. O belo e o sublime são realmente ideias de natureza diversa, sendo um fundado na dor e o outro no prazer, e por mais que possam se distanciar, posteriormente, da natureza direta de suas causas, essas causas continuam sempre distintas entre si — distinções que jamais devem ser esquecidas por quem se proponha a suscitar paixões”.

 

(BURKE, Edmund. Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do belo e do sublime. Organização de G. Sertoli e G. Miglietta. Palermo: Aesthetica, 1987. p. 139.)

Com uma pintura a óleo que conjuga intensidade emotiva e brilho cromático, Douglas de Souza (Blumenau, Brasil, 1984 — vive e trabalha em São Paulo) constrói imagens que se tornam palco de fricção e intimidade, onde os opostos não se anulam, mas se seduzem: força e fragilidade, masculino e feminino, superfície e interioridade. 

 

Em Men in Love — título emprestado da canção homônima da banda Gossip — o artista brasileiro investiga a complexidade das relações afetivas entre homens, dando vida a um universo visual que, com graça desarmante e precisão lírica, narra euritmaticamente o desejo, a identidade, o pertencimento e a representação.

 

Cada tela é uma restituição sublime da nitidez cirúrgica e imaculada típica das imagens digitais, atravessada por uma tensão poética e por um sincretismo visual. É um tecido imagético no qual se entrelaçam símbolos heterogêneos, visões oníricas, ícones da cultura pop, alegorias clássicas e um repertório íntimo de referências kitsch. O resultado é um universo figurativo impregnado de saturação sensual, sedução hipervisível e elegância que flerta constantemente com o excesso.

 

É como se a própria linguagem da pintura se deixasse guiar por um êxtase do detalhe, por um desejo tátil e inesgotável pela matéria pictórica.
E, no entanto, esse esplendor cromático e compositivo nunca se esgota no autocomplacimento: torna-se antes veículo ideal para explorar o frágil proscênio da masculinidade — uma identidade que se apresenta como monólito invulnerável, mas que, a um olhar mais atento, se revela porosa, permeável, perpetuamente atravessada por fissuras sutis e inevitáveis, porque humana.

 

Nesse contexto, a obra de Douglas de Souza — entre crítica social e reflexões sobre o potencial do corpo, tanto orgânico quanto inorgânico — inscreve-se no panorama mais amplo da arte queer contemporânea. Um campo que não apenas desafia as representações tradicionais de identidade e gênero, mas utiliza a pintura como instrumento de transformação político-social e cultural, capaz de redefinir as fronteiras do desejo, da vulnerabilidade e da própria masculinidade.

Essa pesquisa, ao mesmo tempo, estética e sensível, encontra eco nas reflexões do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. No ensaio A salvação do belo, Han descreve nossa época como a “sociedade da suavidade”: um tempo em que toda forma de aspereza, opacidade ou contradição é removida, em favor de uma estética polida, otimizada, apetecível, pronta para o consumo imediato. Assim, a superfície brilhante — à qual já estamos habituados, do iPhone a uma escultura de Jeff Koons — não provoca, não questiona, nem oferece resistência: pede apenas um “like”, anestesia as luxações, neutraliza qualquer traço de negatividade.

 

Contra essa estética polida, Douglas de Souza opõe uma pintura que cintila, sim, mas para desestabilizar. Uma beleza ambígua, que por trás do brilho de suas figuras feitas de linhas e curvas sinuosas, cores vivas, às vezes ofuscantes, sempre esconde uma fratura, uma fenda, uma promessa de vulnerabilidade.

 

No nascente léxico iconográfico do artista, cavalos em trote ou empinados, cervos retratados com elegância hierática, automóveis e motocicletas de superfícies cromadas convivem harmoniosamente ao lado de naturezas-mortas que representam antúrios carnudos e outras espécies florais — cujas pétalas, por vezes, se transformam em formas quase abstratas — bem como cisnes de porcelana que, ao se beijarem, formam um coração, veludos macios ao toque e cinzeiros também em forma de coração. Não existe hierarquia entre os objetos: tudo faz parte de um sistema simbólico fluido, no qual o viril se funde ao feminino, e o fetiche erótico se dissolve na mais delicada e suavizante ternura sentimental. Nessa convivência de códigos antitéticos, de Souza reflete sobre a ambivalência do olhar, sobre a oscilação perpétua — e cada vez mais fluida — entre desejo e representação, entre o que se mostra, o que se é e o que se oculta. Alegorias, altamente figurativas e incrivelmente flamboyant, de uma experiência homossexual da masculinidade, antitética em relação à convencional, mas real e legítima.

 

Além disso, nessa constelação fulgurante e fortemente simbólica, o artista conta ter imaginado uma concha que, em segredo, guarda em seu interior uma pérola: uma metáfora densa de tensão entre superfície e núcleo, entre dureza e fragilidade. A atração por uma paleta iridescente, semelhante aos reflexos do arco-íris, entrelaça-se a um profundo interesse pela própria estrutura da concha — uma forma compacta que deve ser forçada para revelar, em seu âmago, um elemento precioso e brilhante. Esse contraste entre um exterior fechado e resistente e um interior delicado e luminoso configura-se como um dos núcleos conceituais mais intensos de sua pesquisa.

 

A superfície — vidro, porcelana, metal polido — é uma presença constante em seu trabalho: fascinante, anafética, aparentemente impenetrável, mas sempre à beira de se romper, como uma corda de violino esticada ao extremo. É aqui que a pintura toca uma verdade mais profunda: toda identidade, como todo ornamento, é uma pele frágil, pronta a ceder e a se fragmentar para então revelar o que esconde. Afinal, como nos lembra Han, o belo não consola: expõe à ferida. E justamente por causa dessa ferida, inevitavelmente nos transforma.

 

Nesse sentido, Men in Love é também um exercício de vulnerabilidade: um convite a olhar de perto, a suspender o julgamento, a habitar a possibilidade de outra masculinidade — feita de cuidado, equilíbrio, empatia, gentileza e beleza compartilhada.

 

As composições, por sua vez, mesmo em sua evidente qualidade cinematográfica, não constroem uma narrativa linear, mas oferecem pistas e fragmentos de uma constelação afetiva, como se cada imagem fosse uma nota de rodapé de um diário secreto, profundamente emotivo. As citações musicais, as frases retiradas do pop, os detalhes aparentemente insignificantes — como um cigarro esquecido em um cinzeiro rosa — carregam-se de um valor quase litúrgico, mais do que ornamental, transfigurados pela pintura em ícones de uma experiência ao mesmo tempo pessoal e coletiva.

Enaltecendo o amor em sua forma mais pura, Douglas de Souza não se limita a retratar homens apaixonados: narra esse sentimento como um campo de tensões, um espaço de negociação entre estética e afeto, cultura e corporeidade, onde se entrelaçam as mais profundas contradições que marcam nosso presente. Em uma época de incessantes redefinições identitárias, seu trabalho, em contínua regeneração, nos recorda que a pintura pode continuar a ser um gesto ao mesmo tempo político e sensual: um ato que acaricia e interroga, que ilumina desmascarando as aparências.

 

No coração brilhante de cada uma de suas pinturas ressoa uma antiga advertência, retirada da última frase do soneto O torso arcaico de Apolo de Rainer Maria Rilke: “Tu deves mudar tua vida”. Como um eco de tempos distantes, mas de sabor surpreendentemente contemporâneo, esse convite parece querer contrastar a inércia do presente e sacudir o espectador da indiferença ou da inclinação incontrolável ao julgamento fácil e a priori.

Não por acaso, se Fiódor Dostoiévski sustentava que seria a beleza a nos salvar, hoje — em uma época que anestesia o olhar e poliza cada superfície, despindo-as de identidade — talvez seja justamente a beleza, a autêntica, que deva ser salva. Não a complacente, pronta para ser devorada, mas a que mais se aproxima do conceito de sublime: aquela que se expõe, dá voz à fragilidade, abre uma ferida e nos obriga a olhar além do reflexo ofuscante das aparências, para enfim poder curá-la verdadeiramente.

 

Com Men in Love, Douglas de Souza devolve à pintura uma de suas qualidades mais transformadoras: a de revelar, sob a perfeição aparente das coisas, aquilo que é mais humano e autêntico — o desejo, a ternura e a possibilidade de transformar-se para continuar a existir, não apenas no melhor dos mundos possíveis, mas talvez em um ainda mais sublime.

 

Domenico de Chirico

Traduzido por  Sandro Moscatelli

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Upon concluding this overview of beauty, the idea of comparing it to the sublime naturally arises, and in this parallel a remarkable contrast appears. Sublime objects are, in fact, vast in their dimensions, while beautiful ones, in comparison, are small; if beauty must be smooth and polished, grandeur is rough and careless; beauty must avoid the straight line, deviating from it insensibly; grandeur, in many cases, appreciates the straight line and, when it deviates from it, often makes a sharp turn; beauty should not be obscure, grandeur should be dark and gloomy; beauty should be light and delicate, grandeur solid and even massive. The beautiful and the sublime are really ideas of a different nature, one based on pain and the other on pleasure, and however much they may subsequently distance themselves from the direct nature of their causes, these causes always remain distinct from each other — distinctions that should never be forgotten by those who set out to arouse passions.”

 

(Burke, Edmund. A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Beautiful and Sublime. Edited by G. Sertoli and G. Miglietta. Palermo: Aesthetica, 1987).

 

With an oil painting that fuses emotional intensity with chromatic brilliance, Douglas de Souza (Blumenau, Brazil, 1984 — lives and works in São Paulo) creates images that become stages of friction and intimacy, where opposites do not cancel each other out, but rather seduce one another: strength and fragility, masculinity and femininity, surface and interiority.

In Men in Love — a title borrowed from the eponymous song by the band Gossip — the Brazilian artist explores the complexity of affective relationships between men, giving life to a visual universe that, with disarming grace and lyrical precision, narrates desire, identity, belonging, and representation with rhythmic harmony.

Each canvas is a sublime restitution of the surgical, immaculate clarity typical of digital images, traversed by poetic tension and visual syncretism. It forms an imagistic fabric where heterogeneous symbols, dreamlike visions, pop culture icons, classical allegories, and an intimate repertoire of kitsch references intertwine. The result is a figurative universe imbued with sensual saturation, hyper-visible seduction, and elegance that constantly flirts with excess.

It is as if the very language of painting were guided by an ecstasy of detail, by a tactile and insatiable desire for pictorial matter. Yet, this chromatic and compositional splendor never lapses into mere self-indulgence: rather, it becomes an ideal vehicle for exploring the fragile stage of masculinity — an identity presented as an invulnerable monolith but, upon closer inspection, revealed to be porous, permeable, and perpetually crossed by subtle and inevitable fissures, because it is human.

Within this context, Douglas de Souza’s work — balancing social critique with reflections on the potential of the body, both organic and inorganic — situates itself within the broader panorama of contemporary queer art. A field that not only challenges traditional representations of identity and gender but also uses painting as a tool of socio-political and cultural transformation, capable of redefining the boundaries of desire, vulnerability, and masculinity itself.

This research, simultaneously aesthetic and sensitive, resonates with the reflections of South Korean philosopher Byung-Chul Han. In The Salvation of Beauty, Han describes our era as the “society of softness”: a time when all forms of roughness, opacity, or contradiction are removed in favor of a polished, optimized, immediately consumable aesthetic. The glossy surface — familiar from iPhones to Jeff Koons sculptures — provokes nothing, questions nothing, offers no resistance: it only asks for a “like,” anesthetizes dislocations, and neutralizes any trace of negativity.

Against this polished aesthetic, Douglas de Souza presents a painting that glimmers, yes, but to destabilize. An ambiguous beauty, which behind the shine of its figures — composed of sinuous lines and curves, vivid, sometimes blinding colors — always hides a fracture, a fissure, a promise of vulnerability.

In the emerging iconographic lexicon of the artist, trotting or rearing horses, hieratically elegant deer, chromed cars and motorcycles coexist harmoniously with still lifes featuring fleshy anthuriums and other floral species — petals occasionally transforming into near-abstract forms — as well as porcelain swans whose kisses form a heart, soft velvets, and heart-shaped ashtrays. No hierarchy exists among these objects: all belong to a fluid symbolic system in which the virile merges with the feminine, and erotic fetish dissolves into the softest, most tender sentimentality. Within this coexistence of antithetical codes, de Souza reflects on the ambivalence of the gaze, the perpetual — and increasingly fluid — oscillation between desire and representation, between what is shown, what is, and what is concealed: highly figurative, flamboyant allegories of homosexual masculinity, antithetical to convention yet real and legitimate.

Moreover, in this dazzling and strongly symbolic constellation, the artist imagines a shell that secretly holds a pearl: a dense metaphor for the tension between surface and core, between hardness and fragility. His attraction to an iridescent palette, reminiscent of rainbow reflections, intertwines with a profound interest in the shell’s structure — a compact form that must be forced to reveal a precious, luminous element within. This contrast between a closed, resistant exterior and a delicate, shining interior constitutes one of the most intense conceptual cores of his research.

Surface — glass, porcelain, polished metal — is a constant presence in his work: fascinating, impenetrable, yet always on the verge of breaking, like a violin string stretched to its limit. Here, painting touches a deeper truth: every identity, like every ornament, is a fragile skin, ready to yield and fragment, revealing what lies beneath. As Han reminds us, beauty does not console: it exposes the wound. And precisely because of this wound, it inevitably transforms us.

In this sense, Men in Love is also an exercise in vulnerability: an invitation to look closely, suspend judgment, and inhabit the possibility of another masculinity — one made of care, balance, empathy, gentleness, and shared beauty.

The compositions, even with their evident cinematic quality, do not construct a linear narrative; instead, they offer clues and fragments of an affective constellation, as if each image were a footnote in a deeply emotive secret diary. Musical references, lines from pop culture, and seemingly insignificant details — like a forgotten cigarette in a pink ashtray — acquire an almost liturgical value, more than ornamental, transfigured by painting into icons of an experience both personal and collective.

Celebrating love in its purest form, Douglas de Souza does not merely depict men in love: he portrays this sentiment as a field of tensions, a space negotiating aesthetics and affection, culture and corporeality, where the deepest contradictions of our present intertwine. In an era of relentless identity redefinitions, his work, continuously regenerating, reminds us that painting can remain a political and sensual gesture: an act that caresses and interrogates, illuminating while unmasking appearances.

At the luminous heart of each painting resonates an ancient admonition, drawn from the final line of Rainer Maria Rilke’s sonnet The Archaic Torso of Apollo: “You must change your life.” Like an echo from distant times, yet surprisingly contemporary, this call contrasts with the inertia of the present, shaking the viewer from indifference or the compulsion toward easy, a priori judgment.

Not coincidentally, if Fyodor Dostoevsky claimed that beauty would save us, today — in an era that anesthetizes the gaze and polishes every surface, stripping it of identity — perhaps it is precisely beauty itself that must be saved. Not the complacent beauty, ready to be consumed, but that which approaches the sublime: that which exposes itself, gives voice to fragility, opens a wound, and compels us to look beyond the blinding reflection of appearances in order to truly heal it.

With Men in Love, Douglas de Souza restores to painting one of its most transformative qualities: revealing, beneath apparent perfection, what is most human and authentic — desire, tenderness, and the capacity to transform in order to continue existing, not only in the best of possible worlds, but perhaps in an even more sublime one.

 

Domenico de Chirico

Translated by Sandro Moscatelli

© Claraboia, 2025

Al. Gabriel Monteiro da Silva, 2906

São Paulo

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